A MODA (NO ou DO) HIP HOP?

Por Ana Carolina Lahr
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“Se deus me deu caneta, eu devolvi poesia. Passei a decorar todos os rap que eu ouvia. E um dia, comprei uma corrente que tinha cor de prata. Mas não era de prata, reciclagem de lata. Comprei “duas camiseta” GG e a calça mais larga que a loja podia vender. Me senti mais vivo, funcionava como incentivo. Mais um motivo pra eu acalmar meu lado agressivo”. (Projota – Mais do que pegadas)

Com uma veia mais que artística, o hip-hop reúne quatro elementos (o rap, o break, o grafite e o Dj) e encontra na rima formas de denúncia e de resistência à desigualdade social.

Há rima também na entonação da letra, essencial na estética de suas canções; e, para quem conseguir ler além, nas mensagens caladas da sua forma de se apresentar.

No trecho de música que abriu esse artigo, uma das inúmeras alusões ao vestuário na poesia dos rappers nacionais, reafirmando, cada vez mais, seu valor na identificação com a cultura e a ideologia do movimento.

 

CONTEXTUALIZAÇÃO

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Bronx: Movimento se fortaleceu no bairro periférico de NY. Fonte: cnn.com

O rap (“rhythmandpoetry”= ritmo e poesia) surgiu na Jamaica na década de 1960 e foi levado para os Estados Unidos – mais precisamente no Bronx, em Nova Iorque – no início dos anos 70. Ele agia como uma forma de manifestação contra as diferenças sociais e o descontentamento daqueles que se sentiam excluídos da sociedade.

O movimento musical chegou no Brasil em 1986 e atingiu jovens a procura de diversão com a mesma conotação norte-americana: denunciar problemas sociais, racismo, preconceito, miséria, violência e falta de oportunidade.

Na época, o novo estilo musical não foi bem recebido por grande parte da população, sendo considerado violento e da periferia. Com o tempo, o movimento se tornou atuante nas comunidades e atingiu camadas da sociedade que antes não se interessavam pelo assunto, se tornando cada vez mais popular.

 

HIP HOP E A MÍDIA

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50cent: nova geração de rapper criada pela indústria cultural

 

Desde a origem do hip-hop sua preocupação comunitária sempre foi muito marcante. Mas, ao cair na esfera midiática, o movimento mudou o foco do discurso.

Hoje, o assunto das letras do rap americano é majoritariamente a luxúria, ostentação, orgias, sexo sem limites, bebidas e droga, estando o contexto social em segundo plano.

Ainda assim, o discurso reivindicatório, crítico e satirizado, permanece em alguns artistas, especialmente no Brasil, onde os rappers retratam a dura realidade das periferias brasileiras.

 

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Run D.M.C. abriram os olhos da Adidas para o potencial de consumo do hip-hop. Fonte: carboncostume.com

 

Foi a mídia também a responsável por colocar o hip-hop em contato com o lucrativo mercado do vestuário, já na década de 1980. Isso aconteceu quando o grupo  Run D.M.C. finalmente conseguiu divulgar o rap nos grandes meios de comunicação dos Estados Unidos e transformou, despretensiosamente, a Adidas em um signo próprio do grupo, que passou a ser aderido por seus admiradores.

A demonstração de adesão do segmento rap ao tênis Adidas levou a reformulação da estratégia de vendas da marca, transformando a moda Hip Hop em um exemplar da cultura urbana.

 

MODA NO HIP HOP

A moda ligada ao hip hop nasceu de forma espontânea, para expressar os ideais de seus adeptos. De maneira geral, roupas largas, bonés, gorros, jaquetas, tênis, correntes de ouro e de prata (originais ou falsificados) e vários outros acessórios modelam o estilo. Mas, porque esses itens?

Eis que chegamos ao objetivo desse artigo: as entrelinhas das falas sem palavras.

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B.boys: escolha pelo esportivo para garantir mobilidade na dança.

 

No caso da adesão aos itens esportivos, foi graças aos b. boys que a jaqueta bomber e o tênis esportivo migraram do ambiente esportivo para o cenário urbano.

A escolha se deu por buscarem alternativas de fácil mobilidade afim de não comprometer suas performances na dança. Assim, calças que remetiam a uniformes de equipes esportivas e camisetas justas se tornaram os elementos mais utilizados; os bonés passaram a distinguir e proteger as cabeças durante as performances de dança no solo.

 

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Calças grandes com roupa íntima à mostra fazem alusão à vestimenta de presos

 

E tem mais: você sabia que foi a relação do rapper com o sistema carcerário americano que influenciou na escolha por roupas largas

As calças “baggy” (largas e adquiridas um ou dois números a mais que o necessário por seus usuários) foram adotadas pelos rappers que tinham contato com ex-detentos, acostumados aos uniformes muitas vezes em tamanho maior do que o utilizado por eles. A prática de mostrar parte da roupa íntima também vem dessa referência, usa vez que eram proibidos de usar cintos para evitar acidentes e assim as calças caíam.

A adoção de camisetas de basquete oversize, por sua vez, se explica no fato do esporte ser muito popular nas periferias norte-americanas. Consequentemente, os grandes destaques têm sua origem no mesmo universo berço do Hip Hop, promovendo o intercâmbio.

 

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Grillz: símbolo de status incorporado pelos novos rappers que virou modismo.

 

Uma nova geração de rappers encontrou no mérito do trabalho, porém, inspiração para a adoção de novos signos. Sem medo de exibir o poder aquisitivo adquirido com seu trabalho, o novo status econômico de rappers consagrados na mídia inseriu na representação estética dessa subcultura enormes cordões e pulseiras em ouro ou prata, muitas vezes cravejados de pedras preciosas.

No início do milênio, a ostentação de placas em metal ou pedras preciosas nos dentes (Grillz) também representava status e logo se tornou moda.

 

HIP HOP NA MODA

 

Como percebemos, quando a moda surgida nos guetos urbanos americanos invadiu a mídia, a indústria fashion passou a vê-la como um grande potencial de consumo, e, como aconteceu com outras subculturas, apostou na jogada.

Por outro lado, isso significou uma conquista contra o racismo, no sentido de que até então a moda girava em torno da população branca e a partir dele passou a reconhecer o poder dos afroamericanos e dos latinos como consumidores e produtores de tendências de moda.

 

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Karl Lagerfeld assinou pela Chanel uma coleção inspirada no estilo dos rappers

 

Reforçando a conquista, em 1991 o estilista Karl Lagerfeld assinou pela Chanel uma coleção inspirada no estilo dos rappers, mostrando ser possível aliar a moda das ruas com o requinte exigido pelo mercado de moda de luxo.

 

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Karl Kani foi pioneiro na moda hip-hop. Fonte: The Grey Distric.

 

Na outra vertente, expoentes do hip-hop também decidiram se aventurar na moda e assim deu-se início às grifes dos rappers. Karl Kani foi o primeiro expoente da moda hip-hop. Nascido no Brooklyn, bairro negro de Nova York, Kani criou ainda na adolescência o modelo de calças largas popular entre os rappers. Em 1996, o estilista foi eleito pela revista People como um dos 100 afro-americanos mais ricos.

 

PROTESTO X CONSUMO

 

Quando as passarelas e a mídia tiram as rimas da rua e fazem dela ostentação e o consumo, tem início o paradigma do hip-hop: “Será que um movimento social baseado em uma cultura periférica não estaria ferindo sua ideologia ao adotar marcas de grife? ”.

Em tese, sim. Porém, pesquisas em campo apontam que os adeptos ao movimento defendem, antes de tudo, o direito de se vestirem da maneira que quiserem, usando as marcas que desejarem, sem serem questionados por isso.

É como se o consumo possibilitasse afirmação, resistência, participação, protagonismo e respeito de uma cultura urbana periférica.

Em suma, o desejo de pertencimento através do consumo remete mais à inclusão, denúncia, oposição, formação e comunicação das identidades do que vaidade ou lazer.

 

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Coleção da LAB, grife de Emicida e Evandro Fióti.

 

Por outro lado, aqueles que ainda representam a resistência e oposição em primeiro plano passam a sugerir práticas independentes de fabricação de vestuário, à exemplo, Emicida e Ice Blue, artistas nacionais que produzem e vendem roupas que consagram o estilo da periferia.

 

 

REFERÊNCIAS CULTURAIS

 

– Rap Nacional: Thayde e DJ Hum, Racionais MCs, Pavilhão 9, Detentos do Rap, Câmbio Negro, Xis & Dentinho, Planet Hemp e Gabriel, O Pensador.

– Marcas que são adotadas pelos sujeitos adeptos desse estilo: Adidas, Nike e Slum4, Ecko. Nacional: Slum e Confusão.

– Wu-wear: do Grupo Wu Tang Clan, foi primeiro a se aventurar na produção de uma marca própria de roupas no início da década de 1990. A partir de então, outros rappers passaram também a produzir vestimentas que traduziam seus gostos e estilos através de marcas próprias.

– Sean John: marca criada em 1999 pelo rapper Sean “Puff Daddy” Combs.

– Public Enemy: passa a valorizar em suas vestimentas características como o preto e estampas camufladas, grandes casacos e pesadas joias em ouro que elevavam a indumentária do movimento a uma categoria mais sofisticada.

– Tupac Shakur e Notorius B.I.G. : responsáveis pela popularização do Gangsta Rappers, que adotou as bandanas como item de diferenciação.

– Afrika Bambaataa: pseudônimo de Kevin Donovan, é reconhecido como pai do Hip Hop por ter sido o primeiro a utilizar o termo e dar as bases técnica e artística para o “Hip Hop” que congregava DJs, MCs, Writers (grafiteiros), B.boys e B.Girls (dançarinos de Breaking).

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS:

 

http://www.espm.br/download/Anais_Comunicon_2014/gts/gtdois/GT02_marques.pdf

http://www.coloquiomoda.com.br/anais/anais/10-Coloquio-de-Moda_2014/ARTIGOS-DE-GT/GT02-CONSUMO-DE-MODA/GT-2-EXPERIENCIA-ESTETICA-E-SUBJETIVIDADE-POLITICA.pdf

http://www.intercom.org.br/sis/2010/resumos/R5-1746-1.pdf

http://rappercultura.blogspot.com.br/2011/04/mas-o-que-e-o-rap.html

https://gediscursivos.wordpress.com/2014/07/05/628/

http://www.espm.br/download/anais_comunicon_2014/gts/gt_nove/GT09_DEYSE_ALMEIDA..pdf

http://www.ppgartes.uerj.br/seminario/2sp_artigos/luciana_rocha.pdf

https://repositorio.ufsc.br/xmlui/bitstream/handle/123456789/173181/PCC_Mateus_Final.pdf?sequence=1&isAllowed=y

http://www.imperioretro.com/2016/06/a-historia-da-moda-hip-hop.html?m=0

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Moda

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