O contra-feitiço punk

Por Ana Carolina Lahr
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Até muito recentemente, se alguém me perguntasse quem são os punks, eu me limitaria a assim defini-los: moicanos, alfinetes e violência.

Nenhuma dessas palavras explica o que é o movimento, confesso. Vagamente, aliás, delimitam os seus adeptos.

Se as características que um dia motivaram o nascimento do movimento punk são hoje traduzidas em vitrines, desfilam passarelas e compõe o look da noite daquela menina que quer que acreditem na sua rebeldia, a verdade é que muitos de nós continuam a questionar: quem são os punks?

Em suma, espelhado no anarquismo, a primeira regra do punk é que não existem regras: é não se preocupar em usar roupas certas ou dizer os clichês certos, mas pensar por si mesmo.

Apoiando a criação dissociada da aura de genialidade, a autonomia e o julgamento crítico dos produtos e meios de produção em massa, além do lado político, outro pilar do movimento punk é a máxima do DIY (faça-você-mesmo).

Estimulando o fortalecimento do poder pessoal de realização, o conceito do faça-você-mesmo foi aplicado sob todos os aspectos da vivência punk: na música, onde se criou som improvisando instrumentos quando não disponíveis; na mídia, quando surgiu um sistema de comunicação próprio com a confecção artesanal de flyers e fanzines; e também nas roupas e acessórios. (Vamos falar sobre isso nos tópicos abaixo)

A contracultura de vertente anticapitalista exerceu grande impacto no desenvolvimento de aspectos estéticos e comportamentais na música popular internacional na década de 70. Infelizmente, foram poucos os anos em que o punk conseguiu falar por si só e fugir do consumismo. Mas, ele mostrou a que veio. E sua alma ficou.

Subdividi esse artigo em tópicos para que possamos entender as entrelinhas desse movimento:

 

Contextualização histórica

 

O movimento punk surgiu na Inglaterra na década de 70, como resultado de uma ruptura com a geração dos anos 60 e do movimento hippie, resultando em atitudes isoladas de rebeldia contra o sistema.

Em seguida, uma identidade passou a ser estabelecida. A recessão econômica provocou o desemprego, afetando diretamente os jovens brancos pobres. Assim, as barreiras de classe, o conservadorismo, a discriminação e a falta de liberdade fomentaram a desesperança e esse grupo passou a utilizar a música como linguagem e como fator de identidade.

O punk chegou no Brasil na década de 1970 mas só se fortaleceu na década seguinte, após recuar por conta da dominação da indústria cultural e ressurgir na versão hardcore (bem mais violenta, tanto ideologicamente quanto musical, em comparação com a primeira geração).

Nessa época, os grupos aderiram às ocupações urbanas e, ao contrário do que a mídia pregava mediante a imagem violenta que criara encima do movimento, usavam essas habitações não para praticar vandalismo, mas para estabelecer bandas, criar fanzines e rádios livres como mecanismos de divulgação de suas ideias.

A década de 1990 trouxe novos questionamentos e novas práticas no interior da cena no Brasil. Ainda hoje, uma corrente que se fortalece é a anarcopunk, que junta os ideais anarquistas à luta de diversos movimentos sociais: movimento negro, movimento LGBTTT, Sem-teto. A proposta é constantemente questionar e viver aquilo que se assume enquanto luta.

 

Violência

 

Com origem no subúrbio, a atitude agressiva inicial do punk demonstrou oposição às crenças de paz e felicidade que os hippies difundiram inspirados no orientalismo, já que a experiência do jovem das periferias ensinava algo bem diferente: um mundo de miséria, crime, drogas, abusos e violência policial e familiar.

Logo, o enfrentamento costumeiro nas periferias foi adaptado para satisfazer às necessidades de comunicação da luta contra o capitalismo e a sociedade de consumo.

Quando o punk foi “engolido” pela indústria cultural, porém, a mídia tratou de omitir a luta contra o consumo e contribuiu para a criminalização do grupo ao difundir de forma sensacionalista seus confrontos.

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Estética

 

Como nas demais tribos estudadas até aqui, a forma como os punks se apresentam delimita a tribo.

Com uma linguagem visual que transgredia os conceitos e o comportamento vigentes na época, ao surgirem os punks utilizaram a imagem agressiva para causar desconforto nos demais. Roupas sujas, rasgadas, remendadas com spikes, rebites e patches remetiam à classe operária, à pobreza e ao anticonsumo. Cabelos espetados e coloridos, coturnos e acessórios de couro contribuíram para chocar e destacá-los na sociedade.

Na segunda metade da década de 70, a mensagem de que as roupas não deveriam ser mais prezadas do que pessoas foi invertida pela indústria cultural. O marketing se apropriou da força do punk e, sem pensar duas vezes, inverteu seus valores.

Com o “feitiço virado contra o feiticeiro”, as bandas, formadas longe do padrão do estrelato logo viram seus vocalistas se tornarem astros (veja referências musicais na lista abaixo) e as roupas e adornos passaram a figurar o ponto central de identificação do movimento muito mais do que as atitudes.

Matérias sobre como se tornar um punk massificaram a luta, que passou a ser orientada por uma lógica de produtos a serem consumidos e o punk perdeu o sentido enquanto movimento cultural antissistema.

(É interessante saber que vários artigos defendem a tese de que tanto o movimento hippie quanto o punk não passaram de um realinhamento do mercado para atender cada vez mais os novos públicos consumidores à procura de novidades)

Aos simpatizantes, finalizo esse artigo com as palavras de Craig O’Hara, o livro A Filosofia do Punk: “Os punks evoluíram bastante para preferir a substância em vez do estilo, um fato sempre ignorado ou distorcido pelas representações da mídia. Não basta parecer diferente do normal, é importante tornar-se, conscientemente, senhor de si”.

Que tal começar por aí quando escolher as referências punk para compor o seu look?

No artigo anterior, deixei duas listas para aqueles que desejarem aprofundar seus estudos. Gostei da ideia e vou seguir esse padrão daqui para frente.

 

Referências estéticas e culturais:

 

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– Vivianne Westwood: Esposa de um dos integrantes da banda Sex Pistols e responsável pela elaboração do visual da banda, se tornou figura central na criação da estética visual punk nos anos 70. Rasgou camisetas, pregou alfinetes, furou roupas e couros com cigarro, aplicou ossos de frango formando a palavra ‘rock’. “Criei algo novo destruindo o antigo. Isso não era moda como mercadoria, era moda como ideia”, declara em passagem do livro. Hoje, é sinônimo de luxo e alta-costura. Mas, graças a ela, a moda é vista como o que realmente é: não somente roupa, mas reflexo e ditame de comportamento, resgate histórico e revolução social, cultural e política.

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– Sex Pistols: Foi considerada umas das principais bandas punk a apareceram para o mundo por volta de 1976, através dos meios de comunicação de massa, a partir da autopromoção do empresário Malcolm McLaren, então marido de Vivianne Westwood. Lançou um disco muito significativo para a estética punk, Never mind the bollocks (1977).

 

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– Banda Clash: Antes de se emaranharem com a fama e a fortuna, os Sex Pistols e o Clash romperam com o cotidiano da ordem estabelecida numa tentativa de expor a natureza opressiva da sociedade.

 

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– Replicantes: Uma das primeiras bandas punks de visibilidade no Brasil.

 

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– Supla: Filho de políticos, é criticado por muitos por aderir a filosofia punk, que originalmente vem do subúrbio. Porém, se apropriou do movimento com ardor, especialmente em questão estética. Iniciou sua carreira tocando versões do rock norte-americano e britânico das décadas de 50 a 70, embora os estilos de suas composições estão mais ligadas ao punk e ao hardcore.

 

Artigos acadêmicos que serviram de base para esse artigo:

https://goo.gl/KZQ7an

https://goo.gl/1FaA7D

https://goo.gl/dQgH3m

https://goo.gl/SDnHLn

https://goo.gl/QGkaD2

https://goo.gl/YMTMAa

https://goo.gl/aFk7fR

https://goo.gl/kqLBDJ

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Moda

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