Steampunk e sua performance estética

Por Ana Carolina Lahr
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Recentemente, participei da minha primeira Convenção de Bruxas de Paranapiacaba, interior de São Paulo. Como de costume, o que me levou ao evento foi minha loja itinerante. Mas, posso dizer que fui surpreendida pelo universo imagético criado cerca da cidade turística construída pelos ingleses e que mais parece uma cenografia.

A empolgação dos participantes e a dedicação na representação performáticas de seres etéreos (fadas, bruxas, elfos, vampiros e por aí vai) me seduziu e também criou um questionamento: por que gostamos tanto da ideia de participar de um universo alternativo imaginário?

Eu ainda não consegui responder a essa pergunta, mas ela me levou ao tema desse artigo, que sai do universo de questionamentos políticos e liberdade hippie para voltar à Era da Revolução industrial na representação da cena Steampunk. Você conhece?

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LEGENDA: Quadrinhos são algumas das manifestações do movimento

Considerado um subgênero da tribo urbana Nerd (que também permeia encontros medievais, de super-heróis e por aí vai), o Steampunk começou como um movimento literário e logo cresceu, se espalhando para todo tipo de expressão artística, entre elas quadrinhos, cinema, RPG, etc.

A primeira aparição conhecida do termo Steampunk foi no ano de 1987, embora já se tenha noção de que o estilo era vigente antes de ser categorizado. No Brasil, os primeiros admiradores surgiram nessa época, mas foi recentemente (2008) que o movimento se organizou criando-se, inclusive, um Conselho Steampunk em São Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro.

(Incrível, né? Coincidentemente ou não, descobri que Paranapiacaba também sedia o encontro nacional dessa tribo, que acontece em agosto esse ano. Saiba mais: https://goo.gl/3RektW).

Uma das coisas que mais chama a atenção nesse subgênero é a parte visual, uma vez que o Steampunk é um evento estético imagético de tendências fortíssimas.

Sob o ponto de vista dessa coluna, que se propõem a ler as entrelinhas visuais de cada tribo, recebemos um prato cheio de referências. Porém, para que elas fizessem sentido (para mim e para você) fiz uma vasta pesquisa e decidi que devemos começar do começo.

Que tal entender primeiro o cenário desse RPG?

 

Origem:

 

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Legenda: Filme Wild Wild West foi inspirado na série homônima dos anos 60, considerada uma das primeiras manifestações do steampunk

O termo Steampunk deriva da palavra inglesa ‘steam’ (vapor); o ‘Punk’ vem da conotação urbana e industrial, nada mais.

 

Suas raízes remetem ao gênero literário cyberpunk, mas o grande diferencial é que nessas histórias a Revolução industrial é inspiração para reinventar o presente por meio de diversas performances imagísticas e midiáticas, numa caracterização retrofuturista.

 

Assim, o movimento foca uma época em que a ciência começou a mudar a vida das pessoas e as revoluções sociais relacionadas com o emprego. Mas, enquanto com as máquinas qualquer um vivia a oportunidade de se tornar patrão, elas passaram também a ameaçar o trabalho do homem.

 

Nesse universo criado pelo Steampunk, concepções opostas passam a se expressar em um ambiente fantástico que cria suposições para muitos questionamentos: E se tivessem inventado um computador 100 anos antes, onde estaríamos hoje? Como seria se nossos avós já vivessem a Era da Informação? E por aí vai…

 

Estética

 

Agora sim, vamos ao que nos interessa.

Por se tratar de uma manifestação performática em sua essência, o visual estabelecido por cada steamer (adeptos do Steampunk) é fundamental para a integração e valorização do grupo. Isso não significa que eles se vestirão no dia-a-dia com tal caracterização, mas que o modo como se reconhecerão não será delimitado por um espaço físico, mas pela caracterização estética.

A criação de um imaginário latente não somente causa a minha curiosidade como também já gerou diversas pesquisas científicas cerca do assunto.

E, dentre elas, uma das constatações que mais me chamou a atenção justifica essa valorização estética, sem torná-la necessariamente fútil.

Como ressalta o artigo Steampunk e retrofuturismo: reflexos de inquietações sociotemporais contemporâneas (2013), estratégias das culturas juvenis contemporâneas como o Steampunk, embora envolvam consumo, efemeridade e aparente falta de engajamento sociopolítico, “não podem ser entendidas como alienação, apatia ou indiferença, mas sim como diferentes modos de agenciamento do espaço, dos produtos e das críticas sociais”.

Para estudiosos, ao considerar a criatividade cultural e o papel da imaginação como ferramentas indispensaveis frentes às complexas trocas econômicas, a mistura de experimentação, prazer, performances estéticas, reflexão, crítica, reivindicação e tomada de ações podem gerar eventuais em transformações. (As referências científicas aqui pinceladas encontram-se no final desse artigo e você pode se aprofundar)

Sendo assim, estabelece-se nesse cenário bem definido parâmetros estéticos adotados pela mídia na criação desse imaginário.  Vamos às entrelinhas:

– Os “steamers” (adeptos do Steampuk) incorporam principalmente a Era Vitoriana e a tecnologia movida à vapor ao seu visual.

 

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– Para as mulheres, corsets e corpetes de pele, anquinhas, vestidos longos, saias, rendas e babados transmitem o romantismo da Era Vitoriana, enquanto acessórios em couro, excesso de rebite e outros metais em ouro velho e detalhes de engranagem causam estranhamento da tecnologia mecânica introduzida na época.

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– Alguns homens usam fraque e armas modificadas.

 

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– Para ambos os gêneros, são os acessórios que levam o toque especial: cartolas, relógios de bolso, bússolas, óculos aviadores (googles), botas/ coturno couro.

– Há um forte apelo ao “faça você mesmo” com construção de engenhocas e bijuterias que levam engrenagens de relógios destruídos, fechaduras, chaves, ampulhetas, dentre outros, e expressam a identidade assumida por cada um.

– Preto é cor primordial para a indumentária, mas também entram na cartela de cores tons cinzentos e naturais como castanho ou verde; cores pasteis envelhecidas remetem ao período Vitoriano.

Ficou com vontade de se aprofundar nesse universo? Ficam aqui algumas referências colhidas durante minha pesquisa:

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LEGENDA: O cineasta Tim Burton é fortemente admirado pelos adeptos ao Steampunk e ele reflete a estética em cada um dos seus personagens, cada um com sua identidade

Movimento cultural:
– The Difference Engine (A Máquina Diferencial) influenciou e continuou a influenciar não só a literatura de ficção científica, como também os quadrinhos e o cinema.
– Romances científicos do século 19, de Júlio Verne, H.G. Wells e Mary Shelley.
– Precursor no cinema: Fritz Lang, Metrópolis (1927).
– Televisão: uma das primeiras manifestações do steampunk foi a série “The Wild Wild West” (1965-1969), que inspirou o filme homônimo em 1999 (As Loucas Aventuras de James West).
– Séries e filmes: ‘Metropolis’, ‘Van Helsing’, ‘Regresso ao Futuro III’, ‘Sleppy Hollow – A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça’, ‘A Volta ao Mundo em 80 Dias’, ‘Cloud Atlas’.
– A estética de Tim Burton encanta os adeptos.

Acadêmico:
– Steampunk e retrofuturismo: reflexos de inquietações sociotemporais contemporâneas –
https://goo.gl/u950KD

– Visualidade Steampunk: a reapropriação de um imaginário
https://goo.gl/qvXlrX

– Molduras para o Steampunk: o uso da metodologia para investigação e projeto de moda
https://goo.gl/q7Vxno

Referências para o texto:
http://sp.steampunk.com.br/
https://www.cartacapital.com.br/cultura/steampunk-saudade-ou-rebeldia
http://nerdgeekfeelings.com/sci-fi-steampunk-as-engrenagens-de-ouro-da-ficcao-cientifica-2/https://www.tecmundo.com.br/12074-o-que-e-steampunk-.htm
http://steampunkbrasil.blogspot.com.br/p/steampunk.html
http://www.hypeness.com.br/2010/10/o-estilo-steampunk/
http://www.cmjornal.pt/mais-cm/domingo/amp/o-steampunk-chegou-as-ruas-da-cidade

Categorias
Moda

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